FAKE: Haddad criou uma “bolsa crack”? Programa De Braços Abertos pagava por trabalho e reduziu o consumo de droga

A gestão de Fernando Haddad manteve entre 2014 e 2016 uma política de saúde que oferecia abrigo, comida, cuidado médico e uma frente de trabalho remunerada a dependentes químicos.

Durante a convenção partidária do Republicanos realizada neste sábado o ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite espalhou fake news sobre o programa De Braços Abertos, implantado por Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo. Segundo Derrite, a gestão petista na capital teria criado uma “bolsa crack”.

O programa De Braços Abertos recebeu prêmio, virou objeto de estudo internacional e reduziu substancialmente o consumo de crack entre seus participantes.

Como o De Braços Abertos funcionava?

Quem entrava no programa recebia um quarto em hotéis do centro, três refeições por dia, atendimento de saúde e acompanhamento da assistência social. Em contrapartida, cumpria quatro horas de trabalho em serviços de limpeza urbana e duas horas de capacitação

Os R$ 15 pagos a cada dia trabalhado estavam atrelados às horas cumpridas, jamais ao uso de entorpecentes. O modelo durou até 2018, quando a gestão de João Doria o encerrou.

Por trás disso havia um conceito consolidado no mundo todo: a redução de danos. A estratégia buscava aproximar a prefeitura dos cidadãos em situação de vulnerabilidade, garantir o mínimo de dignidade e, a partir desse vínculo, abrir caminho para o tratamento.

Os números não mentem

Dois anos depois de implantado, o programa exibia resultados expressivos, segundo levantamento divulgado em 2016 pela Prefeitura de São Paulo: 88% dos beneficiários reduziram drasticamente o consumo de crack, com queda média de 60%, de 42 para 17 pedras por semana.

A fatia dos usuários mais pesados encolheu de 16% para 2%, enquanto a de menor consumo saltou de 22% para 47%. O número de pessoas que passavam o dia inteiro sob efeito da droga caiu de 65% para apenas 5%.

Os ganhos foram além da droga: 84,7% passaram a fazer tratamento de saúde, 84,2% conseguiram tirar documentos que antes não tinham, 72,8% estavam trabalhando e 52,5% reataram laços com a família.

Já nos primeiros meses de 2014, as equipes de saúde registraram uma redução de 50% a 70% no consumo, e o fluxo nas ruas da Cracolândia havia caído de 800 a 1.000 pessoas para cerca de 200 a 250.

Braços Abertos foi premiado e reconhecido dentro e fora do Brasil

Além dos números positivos, o programa De Braços Abertos foi premiado e estudado dentro e fora do país. Ainda em 2014, recebeu o Prêmio David Capistrano, do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de São Paulo (Cosems-SP), figurando entre os dez vencedores de um universo de 396 experiências inscritas.

A organização internacional InSight Crime, especializada em crime organizado, avaliou que o programa estava “realmente funcionando” e o comparou a políticas bem-sucedidas de Holanda e Canadá.

O modelo virou ainda objeto de artigo acadêmico da London School of Economics (LSE) e foi apresentado como exemplo em fórum internacional de políticas de drogas ligado à ONU.

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